Dra. Mirela Borba, PhD
No último sábado, dia 22, a psicóloga, pesquisadora e professora Dra. Mirela Borba, PhD, portadora de uma doença autoimune, viveu uma experiência que a colocou do outro lado da assistência: o de paciente.
Após apresentar uma dor corporal de intensidade muito elevada, sem resposta adequada às medidas realizadas em casa, Mirela procurou a emergência do Hospital Esperança, por volta das 13 horas. Como o quadro não pôde ser controlado inicialmente, foi necessária sua transferência para a unidade de terapia intensiva, onde recebeu infusão intravenosa de lidocaína para controle da dor, sob monitorização.
Durante o atendimento, também foi necessário o uso de um cateter totalmente implantado (CTI), dispositivo de acesso venoso central que permanece completamente sob a pele. O sistema é composto por um pequeno reservatório implantado no tecido subcutâneo, conectado a um cateter que chega a uma veia central. Quando necessário, o reservatório é acessado por meio de uma agulha específica, permitindo a administração de medicamentos e outros procedimentos intravenosos.
Para uma profissional da saúde acostumada a cuidar, observar e interpretar sintomas, vivenciar esses procedimentos como paciente produz uma inversão significativa de papéis.
E essa experiência traz uma discussão que ultrapassa o caso individual: quem cuida de quem passa a vida cuidando dos outros?

O profissional também absorve o sofrimento
Profissionais da saúde convivem diariamente com dor, diagnósticos graves, perdas, medo, morte, conflitos familiares e sofrimento psicológico.
Essa exposição constante pode produzir uma carga emocional cumulativa. E, muitas vezes, o sofrimento não termina quando acaba o expediente. Algumas histórias permanecem na memória. Algumas notícias acompanham o profissional para casa.
A literatura científica demonstra associação consistente entre estresse ocupacional, exaustão emocional e burnout entre profissionais da saúde.
Mas a ciência vem investigando uma questão ainda mais ampla: quais são as consequências de permanecer durante longos períodos em estado de estresse?
O cérebro conversa com o sistema imunológico
A psiconeuroimunologia demonstra que cérebro, sistema nervoso, sistema endócrino e sistema imunológico estão profundamente interligados.
O estresse psicológico pode alterar mecanismos neuroendócrinos e autonômicos e influenciar diferentes componentes da resposta imunológica e inflamatória. Uma revisão publicada em 2026 reforçou as evidências sobre a relação entre estresse psicológico e desregulação imunológica.
Isso não significa, entretanto, que o estresse isoladamente “cause” uma doença autoimune.
As doenças autoimunes são multifatoriais e envolvem predisposição genética, fatores ambientais e diferentes mecanismos imunológicos.
Ainda assim, pesquisas vêm encontrando associações entre eventos estressantes e algumas doenças autoimunes. Uma metanálise identificou associação significativa entre eventos estressantes importantes e doenças autoimunes, embora tenha ressaltado a necessidade de estudos prospectivos para estabelecer causalidade.
Uma revisão publicada em 2024 também encontrou associações entre trauma psicológico, eventos importantes de vida e doenças reumáticas autoimunes, embora os pesquisadores ressaltem a heterogeneidade e as limitações da literatura disponível.
A questão, portanto, não é afirmar que “estresse causa doença”.
É compreender qual é o papel do estresse crônico na complexa interação entre cérebro, comportamento, inflamação e sistema imunológico.
Autocuidado não é luxo
Para profissionais da saúde, autocuidado não deveria ser tratado como uma recompensa depois de cumprir todas as obrigações.
É parte da própria manutenção da saúde.
Dormir adequadamente, estabelecer limites, preservar períodos de recuperação, manter acompanhamento médico e psicológico quando necessário e reconhecer sinais de exaustão são estratégias fundamentais.
Também é necessário questionar uma cultura profissional que frequentemente associa competência à capacidade de suportar tudo.
Resistir a qualquer custo não é sinônimo de saúde.
Quando o cuidador vira paciente
A experiência recente de Mirela Borba evidencia uma realidade que muitas vezes é esquecida: profissionais da saúde continuam sendo humanos.
Conhecer o corpo não impede a dor.
Conhecer a mente não impede o sofrimento.
Conhecer as doenças não torna ninguém imune ao adoecimento.
Naquele sábado, a profissional que habitualmente acolhe, escuta e cuida precisou ser acolhida, monitorizada e cuidada.
E talvez essa seja uma das maiores lições para quem trabalha diariamente com sofrimento humano:
não é necessário esperar o corpo adoecer para começar a cuidar de si.
Cuidar de quem cuida não é luxo.
É uma necessidade clínica, humana e, cada vez mais, uma questão de saúde pública.
(Crédito: Divulgação)