Psiquiatra analisa comportamente de Sergio Hondjakoff em “A Fazenda”

Ecos da Realidade
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Dr. Thiago Zimermann analisa os temas levantados pelos conflitos do ator no reality e alerta para os riscos de associar acusações e comportamentos isolados a diagnósticos psiquiátricos

Conhecido pelo personagem Cabeção, de “Malhação”, Sergio Hondjakoff voltou ao centro das atenções com sua participação em “A Fazenda 18”, da Record. Os conflitos de convivência e as acusações feitas por outros participantes ampliaram o debate para além da competição, trazendo à tona questões sobre respeito, consentimento, exposição pública e responsabilidade. Nesse cenário, o psiquiatra Dr. Thiago Zimermann defende que acolher uma pessoa com histórico de dependência química não significa ignorar limites ou desconsiderar quem relata ter sido atingido por suas atitudes.

“Existe uma diferença fundamental entre explicar um comportamento e justificá-lo”, afirma o médico. “Uma pessoa pode possuir uma história de sofrimento psíquico ou dependência e, ainda assim, continuar responsável pelos limites necessários à convivência. O diagnóstico, quando existe, não deve funcionar como salvo-conduto moral.”

Na dinâmica “Pesando o Clima”, realizada em 28 de setembro, Sergio recebeu dez indicações dos colegas. Participantes criticaram declarações que consideraram racistas e apontaram intolerância religiosa. Também surgiram relatos de comportamentos inadequados com mulheres da casa. O ator negou intenção racista, reconheceu equívocos e pediu desculpas às participantes.

Entre os episódios que repercutiram está o relato de Ana Bruna Avila sobre um abraço dado pelo ator enquanto ele estava de cueca. Ela afirmou ter se sentido atingida por um contato que considerou impróprio; Sergio negou assédio. Após analisar as imagens, a Record anunciou que não o expulsaria do programa. A decisão não encerrou a discussão entre espectadores sobre os limites daquela interação.

Zimermann ressalta que suas observações tratam de princípios gerais sobre saúde mental e convivência, sem constituir uma avaliação do participante. “Não conheço Sergio como paciente, não realizei uma avaliação psiquiátrica dele e, portanto, não seria tecnicamente nem eticamente adequado atribuir qualquer comportamento observado no programa a um diagnóstico, a uma recaída ou a determinada condição mental.”

Acolhimento, limites e proteção

Para o especialista, o histórico de dependência não pode ser utilizado como explicação automática para acusações de racismo, intolerância religiosa ou assédio. “O primeiro cuidado é não psiquiatrizar conflitos morais, sociais ou eventualmente jurídicos.”

Segundo ele, estabelecer essa associação sem evidências pode produzir consequências tanto para a discussão dos episódios quanto para outras pessoas que enfrentam problemas de saúde mental.

“Racismo, intolerância religiosa, desrespeito a limites interpessoais ou uma acusação de assédio não podem ser automaticamente explicados por dependência química ou por um transtorno mental. Fazer essa associação sem evidências produz dois problemas: pode reduzir indevidamente a responsabilidade individual e, ao mesmo tempo, reforça o preconceito contra milhões de pessoas que possuem transtornos mentais e jamais apresentam comportamentos dessa natureza.”

O psiquiatra também destaca a necessidade de distinguir intenção e impacto. A explicação de quem praticou uma atitude deve ser considerada, mas não elimina a importância de ouvir quem relata desconforto.

“Uma pessoa pode afirmar que não teve intenção de ofender, e essa informação pode fazer parte da compreensão do episódio. Mas o desconforto relatado pela outra pessoa também precisa ser ouvido e respeitado. A avaliação de eventual responsabilidade jurídica cabe às instâncias apropriadas, não à psiquiatria e muito menos a um diagnóstico feito pela televisão.”

Na avaliação do médico, acolher a trajetória de alguém em recuperação, cobrar responsabilidade por comportamentos e proteger as pessoas que relatam violações de limites são atitudes que podem coexistir. “Uma coisa não precisa anular a outra.”

Essa cobrança, acrescenta, não deve se transformar em humilhação. “É possível dizer ‘essa atitude ultrapassou um limite’ sem transformar a pessoa inteira naquele comportamento.”

Zimermann observa que o estigma relacionado à dependência costuma levar a julgamentos igualmente prejudiciais. “Ou elas são vistas como culpadas por tudo, ou são infantilizadas e consideradas incapazes de responder pelos próprios atos.”

Para ele, a recuperação também envolve a possibilidade de reconstruir relações e reconhecer responsabilidades. “Recuperar-se também significa recuperar autonomia, responsabilidade e capacidade de reparar relações. Acolhimento e responsabilização não são conceitos opostos. Muitas vezes precisam caminhar juntos.”

Uma cena não permite um diagnóstico

Outro episódio que chamou a atenção ocorreu em 17 de setembro, quando Sergio recolheu fezes de animais com as próprias mãos, sem luvas. A cena provocou comentários sobre higiene e estranhamento nas redes sociais. Para Zimermann, entretanto, uma atitude incomum não permite concluir que exista um transtorno mental.

“Comportamento isolado não é diagnóstico”, afirma. “Uma atitude pode parecer incomum para quem observa e ainda assim não possuir qualquer significado psicopatológico.”

O médico explica que uma avaliação psiquiátrica exige informações que não podem ser obtidas apenas pela observação de um trecho televisionado.

“Na psiquiatria não avaliamos uma pessoa a partir de uma cena de poucos segundos. Precisamos compreender contexto, frequência, duração, padrão anterior de funcionamento, estado mental, crítica, orientação, percepção, pensamento, humor, comportamento, uso de substâncias, medicamentos, condições clínicas e, principalmente, se existe sofrimento ou prejuízo funcional.”

Segundo ele, transformar fragmentos de comportamento em diagnósticos é um dos riscos do julgamento pelas redes sociais. “Psiquiatria não funciona dessa maneira.”

No caso de participantes de um reality, há ainda a limitação do material ao qual o público tem acesso. “Nós vemos aquilo que as câmeras mostram. Isso não equivale a uma entrevista psiquiátrica. Portanto, essa cena, isoladamente, não permite concluir absolutamente nada sobre a existência ou não de um transtorno mental.”

O confinamento e os desafios da recuperação

A participação em um reality pode reunir situações emocionalmente exigentes, independentemente do histórico de saúde de quem está confinado. Zimermann cita a privação de espaço pessoal, a convivência obrigatória, os conflitos frequentes, as alterações de rotina, a exposição contínua, a pressão competitiva e a avaliação permanente do público.

“Para qualquer pessoa isso pode ser emocionalmente exigente. Em alguém em recuperação de uma dependência, alguns desses fatores podem funcionar como gatilhos, dependendo da história individual.”

O especialista, porém, rejeita a ideia de que uma pessoa com histórico de dependência esteja necessariamente incapaz de enfrentar esses desafios. “Ter histórico de dependência não significa estar permanentemente vulnerável, incapaz ou prestes a recair. Recuperação também significa reconstrução de autonomia.”

O acompanhamento, explica, precisa considerar as necessidades individuais. Pode envolver seguimento psiquiátrico e psicológico, manutenção do tratamento previamente estabelecido, atenção ao sono e identificação precoce de mudanças comportamentais relevantes. Também deve existir uma estrutura que permita solicitar ajuda sem que isso seja interpretado como fraqueza ou transformado em espetáculo.

“Em ambientes de confinamento, eu considero particularmente importante que exista uma equipe de saúde independente da dinâmica narrativa do programa. Saúde não deveria ser utilizada como elemento de entretenimento.”

Fama, identidade e perda de reconhecimento

A trajetória de Sergio, conhecido ainda jovem pelo papel em “Malhação” e posteriormente marcado por períodos de menor exposição profissional, também abre espaço para discutir como artistas lidam com mudanças no reconhecimento público. Zimermann ressalta que essa reflexão não permite estabelecer uma causa para a dependência de uma pessoa específica.

“A fama pode produzir uma experiência psicológica bastante particular. Quando alguém constrói parte importante da própria identidade em torno do reconhecimento público e depois passa por uma redução brusca dessa exposição, pode existir uma sensação de perda: de pertencimento, de identidade, de propósito e até de valor pessoal.”

O médico esclarece que a redução de oportunidades profissionais não deve ser tratada como uma explicação única para o uso problemático de substâncias.

“Isso não significa, porém, que a perda de espaço profissional provoque dependência química. Dependência é um fenômeno multifatorial. Envolve vulnerabilidades biológicas, características psicológicas, ambiente, história de vida, disponibilidade da substância, relações sociais, estresse e diversos outros fatores.”

No universo artístico, acrescenta, a mudança na maneira como uma pessoa é reconhecida pode exigir uma reorganização emocional. “A mesma sociedade que rapidamente transforma alguém em personagem público pode, algum tempo depois, deixar de reconhecê-lo. Para determinadas pessoas, administrar essa transição pode ser difícil.”

Ainda assim, o especialista considera inadequado reconstruir uma trajetória pessoal a partir de uma relação simplificada de causa e efeito. “Podemos discutir fatores de risco e vulnerabilidades conhecidos pela psiquiatria, mas não afirmar o que causou a dependência de uma pessoa específica sem uma avaliação clínica adequada.”

Um recomeço além da aprovação do público

Comentários sobre aparência, peso, comportamento e passado, somados à expectativa de reconquistar o público, podem tornar a exposição ainda mais exigente. Para Zimermann, o reality intensifica a comparação social, experiência que também existe fora da televisão.

“Em um reality, aparência, peso, comportamento, passado e personalidade passam a ser avaliados diariamente por milhares ou milhões de pessoas. Para alguém que está reconstruindo sua vida, colocar todo o valor pessoal nessa aprovação pode tornar o processo emocionalmente muito instável.”

O psiquiatra defende que a reconstrução da autoestima encontre referências para além da resposta dos espectadores. “A autoestima mais consistente é aquela que não depende exclusivamente do aplauso externo.”

Nesse processo, vínculos, rotina, projetos, identidade, autonomia e propósito assumem importância. “A pessoa precisa descobrir quem é também quando ninguém está olhando.”

Segundo o médico, a recuperação não se resume à interrupção do uso de uma substância. “É preciso reconstruir uma vida na qual aquela substância deixe de ocupar o centro.”

Por isso, o resultado de uma competição televisiva não deve ser confundido com o resultado de um processo de recuperação. “Ganhar ou perder um programa pode ter importância profissional e financeira, mas não deveria definir o sucesso de uma recuperação.”

www.instagram..com/drthiagozimermann

(Crédito: Divulgação)

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