Ativista diz estar em choque com a morte de Alberto “Beto” Silva, gestor da Casa Florescer, e afirma que quem dedica a vida ao cuidado da população LGBTQIA+ também precisa ser cuidado
A morte de Alberto Silva, conhecido como Beto, gestor da Casa Florescer, em São Paulo, aos 53 anos, após sofrer um infarto durante uma reunião de trabalho, deixou profundamente abalado o produtor cultural e ativista LGBTQIA+ Heitor Werneck.
Amigos há mais de uma década e parceiros em diversos projetos sociais voltados à população LGBTQIA+ em situação de vulnerabilidade, Heitor afirma que a perda do companheiro de militância precisa servir de alerta para uma questão pouco debatida: a saúde mental dos profissionais que atuam diariamente no acolhimento dessa população.
“Há apenas dois dias eu estava na Casa Florescer fazendo uma ação social e conversei com o Beto sobre um projeto para promover saúde mental tanto para os acolhidos quanto para a equipe. Dois dias depois ele morreu durante uma reunião de trabalho. Ainda estou tentando acreditar no que aconteceu”, lamenta.
Para Heitor, Beto dedicou a vida ao cuidado de pessoas que viviam à margem da sociedade e acabou pagando um preço alto pela sobrecarga enfrentada diariamente.
Uma história construída antes da Casa Florescer
Muito antes da criação da Casa Florescer, Heitor Werneck já realizava trabalho voluntário com mulheres trans em situação de rua. Dessa experiência nasceu o curta-metragem O Outro Lado, produzido em parceria com o Casarão Brasil, que retratou a realidade enfrentada por essa população e ampliou o debate sobre a necessidade de políticas públicas específicas para pessoas LGBTQIA+ em situação de rua.
A repercussão do documentário contribuiu para sensibilizar o poder público sobre a necessidade de criar espaços de acolhimento voltados à população LGBTQIA+, culminando na implantação das três primeiras casas de acolhida da cidade de São Paulo.
“A maioria das pessoas que aparecem naquele filme morreu porque não conseguiu esperar os dez anos necessários para que surgisse a primeira Casa Florescer. Essa é uma dor que eu carrego até hoje.”
Foi justamente nesse período de mobilização que Heitor conheceu Beto, que se tornaria gestor da primeira unidade da Casa Florescer e um de seus principais parceiros na luta por políticas públicas voltadas à população LGBTQIA+.
Uma parceria que ultrapassou a gestão pública
Heitor lembra que Beto, além de seu trabalho como gestor da Casa Florescer 1 sempre promoveu ações sociais de forma independente, reunindo voluntários, artistas e organizações para atender pessoas em situação de vulnerabilidade.
“Conheço o Beto desde essa época. Mesmo sem recursos, ele fazia suas próprias ações sociais. Dentro da Casa Florescer 1 ele já chegou realizando o campeonato de vôlei. Era um grande agitador cultural e sempre conseguia reunir pessoas para transformar boas ideias em projetos concretos.”
Ao longo dos anos, os dois desenvolveram diversas iniciativas em conjunto. Entre elas, o projeto Sopão da Madrugada, realizada durante a pandemia sem nenhum apoio governamental apesar de várias solicitações feitas. Nessa ação, o Beto disponibilizou a cozinha da Casa Florescer 1 para que chefes renomados e mais de 20 ONGS (entre elas o Sabão para Todas as Mãos) se revezassem a cada 2 horas para o preparo de cerca de quatro mil marmitas distribuídas todas as noites, acompanhadas de água e cobertores para pessoas em situação de rua, com apoio de voluntários da comunidade BDSM adeptos do Pet Play DOG. Além disso, esse projeto também contemplou a coleta de lixo das ruas.
Também organizaram festivais culturais, quermesses, rodas de conversa, oficinas de empoderamento, apresentações de burlesco, dias de beleza para os acolhidos da Casa Florescer.
Outra iniciativa lembrada por Heitor foi a criação da Corte Trans, realizada paralelamente à Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, no Teatro Alfredo Mesquita. O evento que conta apenas com recursos do próprio Heitor e de outro doador anônimo, coroa reis, rainhas, príncipes e princesas entre pessoas LGBTQIA+ em situação de vulnerabilidade, dando visibilidade justamente àquelas que dificilmente subiriam em um dos carros do evento.
Durante a pandemia, Heitor também promoveu uma live beneficente diretamente da Casa Florescer para arrecadar doações, reunindo artistas e personalidades em apoio aos acolhidos.
“O Beto morreu trabalhando”
Para Heitor, a dedicação integral de Beto ao trabalho evidencia uma realidade pouco discutida.
“O Beto morreu de infarto porque estava extremamente sobrecarregado. Sua partida aconteceu durante uma reunião de trabalho com as assistentes sociais da Casa Florescer. Isso mostra o nível de pressão vivido por quem trabalha diariamente acolhendo pessoas em extrema vulnerabilidade.”
Segundo ele, gestores e equipes desses equipamentos convivem diariamente com histórias de violência, abandono, preconceito e sofrimento, sem que existam políticas estruturadas voltadas ao cuidado desses profissionais.
“Imagine a realidade de um gestor de projetos como Pot e do Transcidadania que sofreram cortes de orçamento esse ano e tem que comunicar a uma pessoa beneficiada por eles que ela foi desligada por falta de recursos e que talvez precise voltar para a rua? Como lidar diariamente com essa carga emocional sem qualquer suporte psicológico?”
Um apelo às autoridades
Para Heitor Werneck, a morte de Beto deve marcar o início de uma discussão mais ampla sobre as condições de trabalho dos profissionais responsáveis pelo acolhimento da população LGBTQIA+.
“Na minha opinião, nem a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social nem a Secretaria Municipal de Direitos Humanos têm dado a atenção necessária à saúde mental desses profissionais. Desde que a nova secretária assumiu tenho tentado uma reunião e nunca sou atendido e não recebo nenhuma justificativa quanto a isso.Cuidar das pessoas em situação de vulnerabilidade também significa cuidar de quem dedica a própria vida a acolhê-las.”
Ele também critica a redução de investimentos em programas sociais e afirma que o enfraquecimento dessas políticas aumenta ainda mais a pressão sobre as equipes que permanecem na linha de frente.
Heitor também tem outros amigos que trabalham em equipamentos públicos pertinentes às Secretarias de Educação, Saúde e Cultura e já está preocupado, pois essa realidade também é vivida por médicos, enfermeiros, psicólogos, professores,agentes culturais entre outros profissionais que lidam diariamente com pessoas em situação de rua, periféricas ou que estejam em outras situações de vulnerabilidade, como os autistas por exemplo.
Dados reforçam o alerta
A preocupação levantada por Heitor encontra respaldo em dados nacionais. Segundo o Ministério da Previdência Social, somente em 2025 foram concedidos 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais, o maior número já registrado pelo órgão.
Os casos de síndrome de burnout também cresceram significativamente. Dados da Previdência Social mostram que os benefícios concedidos por esgotamento profissional passaram de 823 registros em 2021 para 7.595 em 2025, um aumento de mais de 800% em quatro anos.
“Esses dados são os que podem ser comprovados. Agora imagine os milhares de profissionais que prestam o serviço público como MEI e quando pedem afastamento não recebem nenhum benefício? “
Pesquisas brasileiras também apontam que profissionais da assistência social e da saúde estão entre os grupos mais suscetíveis ao adoecimento mental em razão da elevada carga emocional, da escassez de recursos e da pressão constante para atender populações em situação de extrema vulnerabilidade.
“O maior legado que o Beto pode deixar é fazer com que o poder público finalmente compreenda que quem cuida também precisa ser cuidado. Não podemos perder mais pessoas como ele para a exaustão.”
(Fotos: Divulgação)