(Dr. Danilo Madanês esclarece as diferenças clínicas entre o lipedema e a obesidade. (Divulgação)
Frequentemente confundido com obesidade, o quadro afeta principalmente as pernas, pode causar dor e hematomas e ainda passa despercebido por anos. Entender os sinais é parte importante do cuidado.
Nem toda gordura localizada nas pernas tem relação direta com obesidade. Em muitos casos, o que parece ser apenas uma característica corporal pode esconder uma condição crônica, dolorosa e ainda pouco reconhecida: o lipedema. Quase sempre associado ao universo feminino, o quadro costuma surgir ou se intensificar em fases de grande oscilação hormonal, como puberdade, gravidez e menopausa, e ainda hoje é cercado por desinformação, julgamento estético e autocrítica.
Segundo o Dr. Danilo Madanês, que atua nas áreas de Nutrologia, Medicina Esportiva, Endocrinologia e Hormonologia há mais de sete anos, a principal dificuldade está justamente no olhar apressado sobre o problema. “O lipedema é bem confundido com obesidade e, sim, pode estar associado, porém trata-se de uma doença crônica do tecido gorduroso, caracterizada por seu acúmulo anormal e desproporcional, principalmente nas pernas, de forma bilateral e simétrica, sendo quase exclusiva em mulheres”, explica.
A confusão não é pequena. Como o lipedema envolve acúmulo de gordura, muitas pacientes passam anos tentando dietas restritivas, exercícios intensos e mudanças radicais de rotina sem perceber melhora real na região afetada. Isso porque, diferentemente da obesidade, o lipedema tem sinais próprios. “No lipedema, a gordura é localizada, simétrica e dolorosa e pode gerar hematomas principalmente nas pernas, não acomete os pés e mesmo emagrecendo não desaparece. Já na obesidade, o acúmulo de gordura é mais generalizado e costuma responder melhor à dieta e ao exercício”, detalha o médico.

(O lipedema caracteriza-se pelo acúmulo desproporcional e simétrico de gordura, principalmente nas pernas. (Divulgação)
Outro ponto que dificulta o diagnóstico é a forma como esse corpo é lido socialmente. Em vez de investigação, muitas mulheres recebem elogios, comentários sobre “pernão” ou “corpão”, como se tudo não passasse de um biotipo valorizado. “Porque os dois envolvem gordura, mas no lipedema ela aparece de forma diferente, é localizada, acomete os dois lados e principalmente nas pernas. O problema é que no Brasil isso muitas vezes é visto como ‘corpão’, cintura fina, com quadril e pernas grossas, e acaba sendo normalizado, só que em muitos casos é lipedema”, afirma.
Para o Dr. Danilo, falar sobre a condição também é uma forma de aliviar a culpa que tantas mulheres carregam em silêncio. “Milhares de mulheres passam anos se culpando, tentando dietas restritas, treinos intensos e achando que o problema é falta de disciplina. Quando, na verdade, é uma condição médica”, pontua. Nesse cenário, informação de qualidade, escuta clínica e diagnóstico correto deixam de ser apenas etapas do tratamento e passam a ser, também, formas de acolhimento. “O maior erro sobre o lipedema não é só não tratar, é não reconhecer”, finaliza.