Cresce a presença de mulheres no comando das organizações brasileiras

Vinícius Araújo Fernandes
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(crédito: freepik)

Avanço feminino em cargos de decisão reflete mudança estrutural na governança e no perfil das lideranças no país

O aumento do número de mulheres em cargos de liderança executiva e institucional vem se consolidando como uma das principais transformações no ambiente corporativo e público brasileiro. De acordo com os dados do relatório Mulheres nos Negócios 2025 da Grant Thornton, a porcentagem de cargos de liderança sênior ocupados por mulheres no mundo chegou a 34% em 2025, um incremento de 11,7 pontos percentuais nos últimos dez anos.

No Brasil, o movimento foi ainda mais intenso. Enquanto em 2015 as mulheres ocupavam somente 15,2% dos cargos de liderança sênior, a participação cresceu para 36,7% no ano passado. O salto corresponde a um ganho de 21,5 pontos percentuais, quase o dobro da média mundial.

“A presença feminina em cargos sêniores não é apenas uma agenda de diversidade, mas um fator concreto de fortalecimento da governança corporativa. Organizações com lideranças mais diversas tendem a apresentar maior qualidade na tomada de decisão, melhor gestão de riscos e maior aderência a práticas de transparência e accountability”, afirma Roberto Gonzalez, especialista em governança corporativa.

De fintechs e empresas de inovação a plataformas digitais do agronegócio, executivas e dirigentes mulheres assumem posições estratégicas, lideram processos de expansão e imprimem novos padrões de governança, gestão e inovação.

No setor financeiro e de tecnologia, a executiva Amanda Prado, CEO da CorpX, lidera a expansão de uma das principais infraestruturas de alto volume de pagamentos do país. Sob sua gestão, a CorpX acelera sua consolidação como parceira crítica de grandes operações financeiras, com arquitetura escalável, alta disponibilidade e governança reforçada, processando atualmente bilhões de reais mensais em transações via PIX e projetando crescimento consistente nos próximos anos.

“O amadurecimento do mercado exige lideranças capazes de combinar escala, tecnologia, gestão de risco e visão estratégica. Esse ambiente abre espaço para modelos de liderança mais diversos, técnicos e orientados à sustentabilidade do negócio”, afirma Amanda Prado.

No agronegócio, a transformação também ganha força com a atuação de Geórgia Oliveira, CEO do Chãozão, maior portal especializado em propriedades rurais do Brasil. Fundada em 2024, a plataforma se consolidou em menos de um ano como referência no segmento, reunindo centenas de bilhões de reais em propriedades anunciadas e lançando indicadores inéditos de preço do hectare, ampliando a transparência e a eficiência no mercado de terras.

“A presença feminina na liderança do agro representa uma mudança profunda de mentalidade. É possível unir raízes, tecnologia, dados e gestão profissional para transformar um setor estratégico para o país. Prova disso é que 38% das pessoas que pesquisam terras rurais no Chãozão são mulheres”, destaca Geórgia Oliveira.

Outro exemplo dessa transformação ocorre no setor de tecnologia aplicada à indústria e laboratórios. A executiva curitibana Tatiana Bogucheski, CEO da Pensalab, empresa especializada em soluções de alta tecnologia e precisão para instrumentação analítica de laboratórios e processos, construiu sua trajetória em segmentos tradicionalmente dominados por homens.

Após quase 15 anos atuando na indústria de cosméticos e perfumaria, experiência que ela define como “sua grande escola em termos de gestão para a diversidade”, Bogucheski passou também pelo setor automotivo antes de assumir o comando da companhia. Para ela, o maior desafio das mulheres que alcançam posições executivas ainda é a necessidade constante de demonstrar e comprovar suas competências.

“Um grande problema para as mulheres no mundo corporativo, especialmente aquelas que estão ascendendo a cargos C-level, é que exigem de nós objetividade, mas quando uma mulher é direta e objetiva muitas vezes acaba sendo classificada como agressiva. Para mim, sempre foi um desafio de posicionamento. Precisei desenvolver muito autoconhecimento para ser assertiva nas minhas colocações, argumentando sempre com conhecimento e embasamento em dados”, afirma.

Mesmo com avanços, Bogucheski avalia que a presença feminina em cargos de CEO ainda é limitada. “Lideranças financeiras femininas, especialmente em posições de CFO, ganharam mais espaço porque o mercado passou a valorizar um conjunto mais amplo de competências para essas funções. Mas quando falamos de CEOs, a aceitação ainda é menor”, afirma.

Esse movimento de ascensão feminina também responde às exigências de mercados cada vez mais complexos, regulados e orientados por dados. Estudos recentes indicam que organizações com maior diversidade na alta liderança tendem a apresentar melhores indicadores de governança, tomada de decisão e desempenho de longo prazo.

“Diversidade na alta liderança melhora a governança. A presença de mulheres em posições sêniores amplia o repertório estratégico, reduz vieses decisórios e fortalece a sustentabilidade das organizações no longo prazo”, conclui Gonzalez.

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