Por Dra. Francyne Elias-Piera
Tem uma coisa curiosa no calendário ambiental. Quando um tema ganha vários dias oficiais de conscientização, isso normalmente significa duas coisas ao mesmo tempo. Primeiro, ele é urgente. Segundo, ele ainda não entrou de verdade na cabeça das pessoas.
No Brasil, 16 de março é o Dia Nacional de Conscientização sobre as Mudanças Climáticas. No mundo, 24 de outubro é o Dia Internacional das Mudanças Climáticas. Dois dias diferentes para lembrar a mesma coisa: o clima da Terra está mudando e isso afeta diretamente a nossa vida.
Quando um assunto precisa aparecer duas vezes no calendário, o recado é claro. Ainda estamos falhando em comunicar o problema.
E a verdade é simples. Mudanças climáticas não são um tema distante, técnico ou exclusivo de cientistas. Elas estão na chuva que mudou de ritmo, no calor que bate recordes, na seca que afeta plantações, no aumento do nível do mar, nas inundações nas nossas cidades e no comportamento dos ecossistemas.
Mas existe um lugar no planeta que funciona como um termômetro gigante dessas mudanças. Esse lugar é a Antártica.
O que acontece no gelo do extremo sul do planeta não fica no extremo sul do planeta. O degelo altera correntes oceânicas, influencia o clima global e afeta sistemas naturais que chegam até o Brasil.
Por isso, além das datas sobre clima, o mundo criou recentemente uma nova data: 21 de março, o Dia Internacional das Geleiras. O objetivo é chamar atenção para o desaparecimento acelerado dessas massas de gelo que armazenam cerca de 70% da água doce do planeta.
O curioso é que essa data nasceu praticamente em silêncio.
Em 2025, quando o mundo celebrou o Ano Internacional da Preservação das Geleiras, o assunto mal apareceu no debate público. Em 2026, novamente pouca gente sabe que o dia das geleiras existe.
Isso revela um problema sério. Não falta informação científica. Falta tradução dessa informação para a sociedade.
É exatamente nesse ponto que iniciativas de educação científica se tornam fundamentais.
O Instituto Gelo na Bagagem nasceu com essa missão: aproximar as pessoas da Antártica e mostrar que aquele continente congelado não é apenas um cenário distante, mas uma peça central no equilíbrio do planeta.
Dentro desse trabalho, foi criado o Selo Polar, uma certificação educacional que reconhece escolas que incluem temas polares e mudanças climáticas em suas atividades pedagógicas. A ideia é simples: se queremos uma sociedade preparada para enfrentar desafios climáticos, precisamos começar pela educação.
Em 2026, a entrega do Selo Polar acontecerá no Parque Valongo, no Porto de Santos, no dia 21 de março, justamente no Dia Internacional das Geleiras. O local escolhido não é simbólico por acaso. Santos abriga o Navio Oceanográfico Prof. Besnard, uma embarcação histórica da ciência brasileira e que ajudou a revelar muito do que sabemos hoje sobre o oceano e a Antártica.
Celebrar essa data em frente a um navio de pesquisa é um lembrete poderoso. A ciência já está fazendo sua parte há décadas.
Agora precisamos garantir que esse conhecimento chegue às escolas, às cidades e às decisões da sociedade.
Se existem dois dias no calendário falando sobre mudanças climáticas e um novo dia lembrando o destino das geleiras, isso não é excesso de datas. É um alerta.
Um alerta de que o planeta está mudando mais rápido do que a nossa capacidade de prestar atenção.
E talvez o maior desafio hoje não seja produzir mais ciência. Seja garantir que as pessoas finalmente escutem o que ela vem dizendo há tanto tempo.
Dra. Fran é fundadora e Presidente do Instituto Gelo na Bagagem, influenciadora digital, especialista em ecologia polar e ESG ambiental. Atua na formação de professores, criação de conteúdos educativos e palestras sobre Antártica, mudanças climáticas e oceanos.