3 erros comuns que os pais cometem na Páscoa e que não têm a ver só com chocolate

Vinícius Araújo Fernandes
5 Min Read

Três erros comuns que transformam o chocolate, e o bacalhau, em conflito desnecessário

A Páscoa costuma expor dois extremos. De um lado, o medo do excesso de chocolate. De outro, a expectativa de que a criança coma peixe porque é tradição. No meio disso, estão famílias tentando equilibrar prazer, saúde e limites.

O problema é que, sem perceber, muitos adultos acabam transformando a data em um campo de tensão alimentar.

Abaixo, três erros comuns que aparecem nessa época e o que eles revelam sobre a relação da criança com a comida.

Erro 1: Transformar o chocolate em vilão ou em prêmio

Há pais que oferecem chocolate sem qualquer organização, permitindo consumo desestruturado ao longo do dia. Outros restringem de forma rígida, entregando apenas um pedaço mínimo e reforçando que “doce faz mal”.

Ambos os extremos ensinam algo pouco saudável: que o chocolate é ou descontrole, ou culpa.
Quando o alimento ganha status de proibido, aumenta a curiosidade e a fixação. Quando vira recompensa ou barganha, deixa de ser comida e passa a ser moeda de troca.

Organização não é proibição. É estruturar momentos, combinar quantidades possíveis e sustentar o limite com tranquilidade.

Erro 2: Forçar o peixe “porque é tradição”

A Sexta-feira Santa traz a expectativa do consumo de peixe, muitas vezes bacalhau. O alimento é nutricionalmente interessante, rico em proteínas e, dependendo da espécie, fonte relevante de ômega-3.

Mas a tradição não substitui a prontidão alimentar.

Forçar a criança a comer um alimento pouco familiar, de sabor marcante e textura específica, pode gerar resistência duradoura, especialmente em crianças com perfil sensorial mais sensível ou com histórico de seletividade.

Em quadros como Distúrbio Alimentar Pediátrico ou Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo, a pressão aumenta a ansiedade e reforça a evitação. A exposição alimentar precisa ser gradual e previsível, não imposta em um único almoço festivo.

Erro 3: Ignorar o clima emocional à mesa

Muitas discussões na Páscoa não são sobre comida, são sobre controle.

Comparações com primos, comentários de familiares, insistência pública e constrangimento minam algo essencial: a segurança alimentar da criança.

Segurança é o que permite curiosidade. E curiosidade é o que possibilita ampliação de repertório alimentar.

A Páscoa não é avaliação de desempenho. Não é a prova de que a criança “come sem queixas”. É um momento social.

O chocolate pode estar presente sem culpa. O peixe pode ser oferecido sem imposição. O equilíbrio está em oferecer, organizar e sustentar limites com coerência. Não em vigiar ou pressionar.

No fim, a pergunta mais importante talvez não seja quanto chocolate foi consumido ou se o bacalhau foi aceito. A pergunta é: que tipo de mensagem sobre comida essa criança levou desse dia?

Porque as datas passam. Mas a forma como a criança aprende a se relacionar com a alimentação permanece.

Sobre a autora

Maria Fernanda Cestari de Cesar, formada em Fonoaudiologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) em 2014, aprofundou seus conhecimentos ao obter um mestrado em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela mesma instituição em 2017. Em 2018, ela especializou-se em Fonoaudiologia Hospitalar no prestigiado Hospital Israelita Albert Einstein.

Aprofundando seu expertise internacionalmente, Maria Fernanda participou de cursos sobre seletividade alimentar infantil ministrados por renomadas especialistas da área, como Suzanne Morris, Marsha Dunn Klein, Kay Toomey e Holly Bridges. Além disso, enriqueceu sua formação com cursos focados em autismo e seletividade alimentar, respaldados por profissionais e plataformas de destaque no cenário acadêmico.

Em 2022, sua competência no tratamento de dificuldades alimentares foi reconhecida com a certificação pela Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia. Sua prática clínica é voltada ao atendimento de crianças e pré-adolescentes, tanto típicos quanto atípicos, enfrentando desafios alimentares.

Como autora, Maria Fernanda contribuiu para a literatura infantil com os livros ‘Francisco não gosta de comer?’ e ‘Miguel e o espectro de oportunidades alimentares’, além de desenvolver o jogo educativo ‘Alimentando Conversas’.

Ela também compartilha sua expertise como docente na pós-graduação do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, no curso voltado ao Transtorno do Espectro do Autismo sob uma abordagem multiprofissional.

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